sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

MOMO, HERDEIRO DO ESCÁRNIO E DA FESTA: ORIGENS MÍTICAS DE UM REI POPULAR

 

Passei um tempo em silêncio, desses silêncios que não se anunciam. Quem acompanha de perto percebe quando a ausência não nasce do abandono, mas da necessidade. Foi um período de leitura voraz, de escrita obsessiva, de entrega quase solitária, como quem se recolhe para afiar o pensamento e limpar o olhar. Enquanto isso, a cidade seguia seu próprio compasso.

Por aqui, o pré-carnaval já se espalhava pelas ruas de Fortaleza-CE. Todo fim de semana traz uma promessa de barulho, suor, música alta, corpos em trânsito e alegria exibida sem pudor. A festa se ensaiava antes dos grandes dias de carnaval, como se precisasse provar a si mesma sua própria urgência.

Em uma dessas tardes ruidosas, ouvi alguém zombar das vestimentas dos brincantes. Riso fácil, comentário raso, seguido da lembrança da ausência de Momo, o rei carnavalesco, como se sua falta fosse uma falha grave naquele cenário ainda inacabado. Intervim. Expliquei com calma que o reinado de Momo começa no carnaval, não antes. Que o chamado pré-carnaval sequer era conhecido em outros tempos. Acrescentei algo mais incômodo. Se aquela pessoa soubesse quem foi Momo de verdade, não pediria sua presença com tamanha leviandade. Talvez nem o evocasse.

Disse ainda que, se a semelhança bastasse, o julgamento apressado que acabara de fazer carregava muito mais do espírito do Momo original do que qualquer coroa simbólica ou fantasia inflada. O deus da zombaria reconheceria ali um espelho.



Representação de Momo (Momus), como o "Tolo" numa carta de Tarot do século  XVIII.

Como costuma ocorrer quando se atravessa o caminho de alguém pouco interessado em cultura ou escuta, nada foi compreendido. Fui chamado de louco. Ele saiu saltando atrás do bloco que passava, dissolvido na multidão, entregue ao ritmo, sem carregar consigo nenhuma pergunta.

Fiquei. Ri. Ri daquela palhaçada inteira, da cena, do equívoco, do contraste entre o barulho e a ignorância satisfeita.

Agora, porém, chegou a hora de explicar isso a vocês. De contar com vagar quem foi Momo, de onde veio essa figura inquieta e o que ela carrega muito além da caricatura carnavalesca. E quem sabe, se o sujeito tropeçar neste texto, consiga entender um pouco melhor aquilo que já deveria saber, sobretudo se insiste em se dizer tão devoto do carnaval.

MOMO ANTES DA COROA: ENTRE A MASCARA E O RISO INCOMODO ESCÁRNIO

Antes da coroa de papel dourado, antes do trono improvisado sobre carros alegóricos, antes do riso largo que hoje se vende como símbolo de alegria popular, Momo já caminhava entre os deuses. Não como soberano, não como herói, mas como presença incômoda. Antes de ser rei, foi ruído. Antes de ser festa, foi incisão.

Momo nasceu no Olimpo grego, mas nunca pertenceu verdadeiramente a ele. Seu nome carrega o peso da burla, da crítica afiada, da zombaria que não poupa nem o sagrado. Em grego, Mômos ou Momus é essa força que ri enquanto fere, que aponta enquanto desmonta, que observa com um olhar incapaz de se satisfazer. Em latim, Momus preserva o mesmo veneno elegante. Não se trata de riso leve, mas de ironia como exercício constante, quase um vício do espírito.

Filha de Nyx, a Noite, gerado sem pai, Momo surge de um território onde as certezas se dissolvem. Essa origem não é detalhe menor. A noite, na mitologia, não apenas cobre o mundo, ela revela o que o dia prefere esconder. É desse escuro primordial que Momo emerge, trazendo consigo a habilidade de enxergar falhas onde todos celebram perfeição. Por isso nunca foi uma divindade de templos ou devoções. Sua morada sempre foi a palavra, o comentário, o canto torto no meio do coro.

Diferente do imaginário moderno, Momo não escondia o rosto por vergonha. Era representado com uma máscara que se erguia, não que se fixava. A máscara subia para mostrar o rosto verdadeiro, como se dissesse que toda aparência precisa ser questionada. Na outra mão, um boneco, símbolo da loucura. Não da loucura criativa apenas, mas daquela que nasce quando o pensamento não encontra repouso. Esse detalhe iconográfico diz muito. Momo não brinca com a loucura alheia, ela a carrega como extensão de si.

Frequentava o cortejo de Dionísio (Baco, o deus do vinho), caminhava ao lado de Comos, deus das farras, dos excessos e das celebrações noturnas. Ali, entre vinho, música e corpos em desordem, Momo observava, comentava, corroía. Enquanto uns se perdiam no êxtase, ela afiava o olhar. Enquanto outros se entregavam ao abandono, ela permanecia lúcida demais. Talvez por isso nunca tenha sido bem-vinda por completo.

Momo, no séquito de Dionísio, aparece na forma rechonchuda para representar abundância.

Eu, na minha representação de Momo.

Nas narrativas antigas, Momo passa a ocupar o lugar de julgador. Não por virtude reconhecida, nem por sabedoria celebrada, mas pela fama que o precede. Entre os deuses, corria o comentário de que ninguém enxergava tão bem as falhas quanto ele. E foi por isso que Zeus, Prometeu e Atena, inflados pelo orgulho de suas obras, decidiram submetê-las ao seu olhar.

Zeus apresentou primeiro sua criação. Um touro imenso, musculoso, dotado de força bruta e ímpeto indomável. Um animal feito para avançar, para rasgar o espaço com os chifres, para impor respeito pelo peso do corpo e pelo fogo do ataque. Momo observou em silêncio, contornou a figura com os olhos, e então sorriu. Apontou o defeito com delicadeza cruel. Os olhos, disse ele, estavam mal colocados. Não se alinhavam aos chifres. Como poderia uma criatura tão vocacionada para o embate não enxergar com precisão aquilo que pretendia ferir?

Prometeu, em seguida, trouxe sua obra. O homem. Um corpo erguido, moldado com intenção, dotado de mãos capazes de criar, de destruir, de acariciar. Um ser atravessado por desejo, pensamento e contradição. Momo aproximou-se com curiosidade renovada. Tocou o peito da criatura e lamentou a ausência de má abertura. Uma janela, sugeriu, algo que permitisse ver o que se passa por dentro. Pensamentos, intenções, segredos. Para ele, um ser que oculta o próprio interior já nasce defeituoso.

Por fim, Atena apresentou a casa. Um abrigo concebido com lógica, proporção e inteligência. Um espaço pensado para proteger, acolher, organizar a vida. Momo caminhou ao redor da construção, analisou suas paredes, sua base firme, e então encontrou mais uma falha. A casa não possuía rodas. Não podia ser movida. Ficava condenada ao entorno, aos vizinhos, às circunstâncias do lugar. Para Momo, uma morada que não pode escapar é, desde o início, uma prisão elegante.

               Pintura de 1561, de Maarten van Heemskerck rep do juslgamento de Momus

Nenhuma dessas críticas buscava aprimorar o mundo. Nenhuma carregava a intenção de cuidar da criação. Todas serviam a um único propósito: provar que nada, nem mesmo aquilo que nasce das mãos divinas, é suficiente. O olhar de Momo não constrói. Ele desvela até que reste apenas a fratura.

Essa cena guarda uma violência que não se anuncia. Não é a violência do erro explícito, nem do fracasso evidente, mas a da exigência infinita, aquela que corrói em silêncio. Momo não aceita o limite como condição natural da criação. Seu olhar não repousa. Não concede trégua. Tudo o que toca precisa ser atravessado pelo juízo, mesmo quando o juízo já não serve a nenhum propósito além de si mesmo.

É por isso que o Olimpo o rejeita. Não por blasfêmia, não por afronta direta, não por traição aos deuses, mas por excesso de lucidez. A lucidez que não se curva, que não admite pausa, torna-se insuportável até entre imortais. A criação, divina ou humana, não resiste em um território onde a crítica se recusa a cessar. Em algum ponto, até os deuses precisam aceitar a imperfeição como parte do mundo, como condição inevitável de tudo o que nasce.

A expulsão de Momo não carrega fúria teatral. É um gesto quase administrativo, um afastamento necessário para que o próprio cosmos continue respirando. A presença constante de Momo ameaça o ato criador, pois transforma todo nascimento em objeto imediato de corrosão. O Olimpo, para existir, precisa de um intervalo entre o gesto de criar e o gesto de julgar.

Em uma versão posterior do mito, registrada na tradição das fábulas atribuídas a Esopo e retomada por comentadores antigos, a história se amplia e inclui Afrodite, a deusa do amor. Diante dela, Momo se vê, pela primeira vez, em dificuldade. Observa o corpo, a forma, a harmonia, a beleza que parece escapar a qualquer reparo. Não encontra falha nos contornos, nem na presença, nem no encanto que se impõe sem esforço.

Ainda assim, não se cala.

Quando a perfeição se apresenta de maneira irrecusável, Momo recua para o detalhe mínimo. Escuta o som das sandálias de Afrodite ao tocar o chão. Um ruído quase imperceptível, banal, irrelevante para qualquer outro olhar. É ali que finca sua zombaria. Não por necessidade de correção, mas por incapacidade de aceitar o silêncio diante do que não pode ser diminuído.

          Momus, deus da sátira e do escárnio - Pintura de Hippolyte Berteaux, teto do Théâtre Graslin - Nantes

Esse gesto revela sua essência com clareza desconfortável. Quando não há defeito, Momo inventa. Quando a beleza se impõe, ele escava o insignificante. Sua crítica não nasce da justiça, nem do desejo de aperfeiçoar, mas de uma compulsão interna, uma urgência que não admite repouso. O riso de Momo não celebra. Ele precisa ferir para continuar existindo.

Sempre achei essa história profundamente humana. Conheci gente assim. Talvez todos conheçamos. Pessoas incapazes de celebrar sem desmontar, de admirar sem reduzir, de permanecer em silêncio diante do que não podem dominar. Em uma ocasião específica, alguém me disse, com um sorriso de desprezo, que toda festa precisa de rei, que toda alegria exige um rosto oficial. Sorri de volta. Pensei em Momo. Pensei em como ele jamais reinou. Foi expulso do Olimpo. Condenado a vagar como alegoria, como conceito, como espelho desconfortável.

Momo não foi criado para liderar multidões. Foi feito para incomodar consciências. Não nasceu para ser coroado, mas para apontar fissuras. Seu lugar sempre foi o da margem, da palavra atravessada, do riso que não consola. Quando hoje pedem sua presença antes da hora, quando exigem sua aparição como se fosse garantia de autenticidade, repetem o gesto que levou à sua queda. Transformam crítica em fantasia, ironia em decoração, pensamento em adereço.

Talvez seja essa a maior anedota de todas. Momo, o deus incapaz de pertencer, convertido em símbolo oficial da festa. A figura que jamais se acomodou, agora acomodada em carros, discursos e slogans. E ainda assim, se olharmos com atenção, ele continua ali. Não na coroa, mas no comentário atravessado. Não no trono, mas no julgamento apressado. Não no centro do bloco, mas naquele riso que desmonta tudo e segue adiante, satisfeito com o próprio eco.

MOMO: DA QUEDA DO OLIMPO AO TRONO DA FARSA CARNAVALESCA

Komos (ou Comos), divindade menor e talvez menos conhecida fora dos círculos eruditos da Grécia e Roma antigas, era o deus das festas noturnas, dos excessos e da embriaguez jovial. Seu nome já evocava a dança, a música e a alegria desenfreada, e suas celebrações eram marcadas por orgias, cantos e marchas improvisadas que transformavam a cidade em um palco vibrante de risos e rituais invertidos. Diferente de Momo, que personificava a crítica e a ironia, Komos era a encarnação do prazer e da liberação das convenções, o espírito que empurrava os mortais para o abandono do autocontrole e para o êxtase do instante. Nas ruas, em salões e jardins, sua presença era invisível, mas sentida na música dos tambores, nos passos desordenados e no tilintar de taças e pratos.

Vasos áticos de figuras negras e vermelhas (sécs. VI–V a.C.) - Komos aparece como jovem bêbado, muitas vezes: nu ou semi-nu, com coroa de hera ou videira, segurando taça (kylix) ou ânfora de vinho, em procissão festiva (kômos) com músicos e dançarinos. Às vezes ele se confunde visualmente com sátiros, mas sem características animalescas.

Foi na confluência desses dois mundos, o da sátira de Momo e o da folia de Komos, que a tradição romana encontrou o modelo do que viria a ser o Rei do Carnaval. A fusão das duas figuras — Momo, com seu sarcasmo afiado e olhar crítico, e Komos, com sua energia libertária e festiva — criou uma divindade híbrida, masculina, capaz de governar o tempo da festa sem que ninguém ousasse questionar sua autoridade temporária. Durante três dias, ao ritmo das celebrações em honra a Saturno, as saturnálias, o escolhido para representar Momo encarnava essa síntese: seria ao mesmo tempo crítico e indulgente, mordaz e generoso, mestre das regras e autor do caos. Era o único capaz de equilibrar a ironia da crítica com a energia da festa, transformando o espaço urbano em um teatro de exageros e paradoxo.

O rito de coroação desse Rei Momo, embora efêmero, refletia a profundidade dessa herança mitológica. O mais belo soldado da cidade, ou posteriormente o homem mais obeso — símbolo da fartura e do excesso — recebia a coroa, tornando-se a autoridade suprema do instante, o anfitrião das transgressões, o juiz e o executor do humor e da crítica. Mas, ao término da celebração, a morte simbólica do rei lembrava a fragilidade do poder e a necessidade da passagem: toda autoridade, por maior que pareça, é apenas um gesto temporário diante da marcha inexorável do tempo.

A fusão de Komos e Momo não se limitou à festa. Ela simbolizava a união de opostos: a indulgência e a censura, o prazer e a lucidez, a excitação e o juízo. Essa combinação permitiu que o carnaval emergisse como espaço onde a ironia e a alegria coexistem, onde o exagero físico e a crítica social se encontram, e onde o riso é tanto celebração quanto advertência. Não é por acaso que, séculos depois, a imagem do Rei Momo atravessaria continentes, aparecendo nas ruas de Sevilha, de Barranquilla e do Rio de Janeiro, sempre portando a mesma função essencial: coroar a festa e, ao mesmo tempo, recordar que toda alegria consciente precisa de sombra para existir.

Assim, Momo e Comos deixaram de ser figuras isoladas para se fundirem em uma divindade masculina, transformando-se no símbolo supremo das festas, da desordem e do prazer sem limites. Era a imagem que seduzia os artistas, que povoava pinturas, relevos e máscaras, e que transformava cada celebração em uma coreografia ritual de exagero e sátira. Durante os três dias em que o povo se entregava às festividades dedicadas a Saturno — os ancestrais do que hoje chamamos carnaval — o mais belo dos soldados era escolhido para representar Momo. Coroado como rei, tornava-se a autoridade máxima, anfitrião de toda a orgia, senhor da transgressão, e guardião do caos cuidadosamente permitido. Ao final, entretanto, a efemeridade de seu poder era lembrada pela morte simbólica do rei, uma oferenda de passagem que unia a celebração à consciência da finitude humana.

Com o tempo, os critérios mudaram. O escolhido passou a ser o homem mais obeso, símbolo da fartura, do excesso, da extravagância que transbordava o ordinário.

Na Espanha de 1553, quando a fé ainda ardia em ritos severos e a noite sabia o gosto do sacrifício, o Rei Momo surgiu sob a forma de um boneco entregue às chamas. Não era apenas fogo: era um gesto de misericórdia simbólica, uma tentativa de suavizar antigos costumes de brutalidade explícita. Ao queimar Momo, queimava-se também a dor crua, substituindo-a por metáfora — a morte de Cristo encenada não como sangue, mas como cinza, promessa silenciosa de ressurreição.No ventre febril do carnaval, Momo tornava-se espelho dos excessos humanos. Sua queima não era punição, mas catarse: o fogo lavava os pecados da carne, dissolvia risos em fumaça e devolvia a cidade ao compasso austero da Quaresma. O que ardia ali não era apenas o boneco, mas a embriaguez coletiva, os desejos que precisavam morrer para que a ordem pudesse renascer.

Em Cádiz, antiga sentinela do Atlântico, cidade moldada pelo sal, pelo vento e pelo escárnio, Momo ganhou voz própria. Tornou-se sátira encarnada, riso afiado, crítica travestida de festa. Sob sua máscara ardente, zombava-se dos poderosos, das autoridades, da própria condição humana — tudo com a leveza perigosa do deboche que não fere, mas expõe. Era uma irreverência quase sagrada, um pacto tácito entre o povo e o fogo.

À meia-noite da Quarta-feira de Cinzas, quando o carnaval exala seu último suspiro, Momo é entregue às chamas. O relógio marca não apenas o fim da festa, mas a passagem do excesso para o silêncio, do delírio para a contenção. As cinzas caem como neve morna sobre a cidade, e nelas repousa a promessa de retorno à normalidade — austera, penitente, necessária.

A tradição persiste, teimosa e viva. Ano após ano, novos Momo são criados, cada qual mais real, mais humano, como se a cidade desejasse reconhecer-se naquele corpo condenado ao fogo. Assim, Cádiz continua a queimar seu “Dios Momo”, não por ódio, mas por amor ao rito: porque algumas verdades só se revelam quando dançam, e algumas purificações só acontecem quando ardem. Mais tarde, em Barranquilla, na Colômbia, o Rei Burlesco reinava nos salões de baile, autorizando a desordem carnavalesca com bumbos, pratos e maracas, em paródia as cerimônias oficiais dos vice-reis, devolvendo às ruas o espírito irreverente de Momo, agora traduzido em ritmo, riso e música.



Ilustração do El Dios Momo, 1886, Biblioteca Nacional da Espanha

Em 1910, sob a lona do Circo Spinelli, uma opereta escrita e encenada por Benjamin de Oliveira marcou a primeira personificação do Rei Momo no Brasil. Benjamin de Oliveira, reconhecido como o primeiro palhaço negro do país, fez surgir em cena essa figura inaugural, ainda embrionária, como um presságio alegre. Mesmo assim, somente na década de 1930 o Rei Momo ganhou contornos próximos à imagem carnavalesca que atravessou o tempo e chegou aos nossos dias.

Benjamim de Oliveira vestido e maquiado como palhaço, o primeiro rei Momo do Brasil

Benjamim de Oliveira e sua mãe. - Benjamim de Oliveira — nome que mais tarde soaria como clarim nos picadeiros — nasceu Benjamim Chaves, em 11 de junho de 1870, numa fazenda de chão duro e céu largo, a Fazenda dos Guardas, em Pará de Minas. Ali, a terra ainda guardava marcas de correntes invisíveis, e o ar parecia pesado de destinos já escritos antes mesmo do primeiro choro.

Em 1933, um grupo de jornalistas do periódico A Noite, no Rio de Janeiro, então capital da República, concebeu um boneco de papelão para desfilar pelas ruas da cidade. Ao fim do percurso, o boneco foi colocado em um trono, conduzindo simbolicamente a folia popular. Recebeu o nome de Rei Momo I e Único, denominação que misturava ironia, invenção e desejo de eternidade. No ano seguinte, em 1934, a equipe de A Noite decidiu substituir o boneco por uma figura de carne e presença real. O escolhido foi o cronista Francisco de Moraes Cardoso, que inaugurou a tradição carioca do reinado momesco. Seu domínio sobre a festa se prolongou até 1948, ano de sua morte, encerrando um capítulo fundador.

Baile de Carnaval 28/02/1946 no Teatro João Caetano - Rio de Janeiro. Nela consta a Rainha do Baile das Atrizes (Mara Rúbia) e o Rei Momo (Francisco de Moraes Cardoso). Foto: Jean Manzon por Diários Associados, acervo Instituto Moreira Salles

Do período que se seguiu à morte de Francisco de Moraes Cardoso até o início da década de 1970, o Rei Momo passou a ser escolhido por indicação de agremiações carnavalescas e de veículos de imprensa, num acordo tácito entre a festa e quem a narrava. Em 1972, um decreto municipal alterou definitivamente esse percurso e determinou que o Rei Momo fosse definido por meio de concurso público, estabelecendo um novo modelo de escolha.

Outras cidades do Brasil também adotaram a coroação do Rei Momo. Santos foi pioneira no estado de São Paulo, em 1934. O primeiro coroado no município foi Waldemar Esteves da Cunha, conhecido como o Magnânimo, considerado o mais antigo Rei Momo do país. Seu nome atravessou décadas e permaneceu ligado à memória do carnaval até sua morte, em 2013, aos 92 anos.

No Rio de Janeiro, cidade que deu início à tradição e cultiva o orgulho do título de Rei Momo I e Único, destacou-se Reynaldo de Carvalho, conhecido como o Bola, que reinou por nove anos consecutivos, de 1987 a 1995, estabelecendo um recorde que permanece intacto. Em 2004, um decreto do então prefeito César Maia encerrou a exigência de peso mínimo como critério para inscrição no concurso de Rei Momo. O argumento apresentado foi a política de combate à obesidade, redefinindo os contornos simbólicos do corpo real da festa e abrindo novas possibilidades para o trono da alegria.

E ainda, se olharmos para as tradições mitológicas, vemos que Momo jamais se limitou à esfera humana. Sua presença acompanha até o próprio desenho do destino. Diz-se que, diante do peso que a Terra suportava devido à multiplicação rápida dos homens, Zeus, incomodado, pensou em puni-los de diversas maneiras: fulminar ou afogar a maioria. Mas Momo, com sua sagacidade infalível, sugeriu um caminho mais engenhoso: casar Tétis com um mortal, de cujo enlace nasceria Aquiles, e ao mesmo tempo permitiria que Zeus gerasse Helena, cuja presença provocaria discórdia entre a Ásia e a Europa, culminando na Guerra de Tróia. A ironia de Momo não era apenas crítica ou farsa: era uma intervenção estratégica, capaz de reorganizar o mundo por meio do caos calculado, equilibrando vida e morte, ordem e transgressão.

No vocabulário humano, o nome “momo” passou, no século XVI, a significar farsa, sátira e paródia, registrado em crônicas espanholas que descreviam “grandes e suntuosas festas de momos”. Tornar-se Rei Momo, o rei da folia carnavalesca, não exigia grande adaptação: o sarcasmo, a sátira e a burla já eram a essência dessa figura. Assim, o carnaval, com toda a pompa, a música e o exagero, não inventou Momo. Apenas vestiu de cores e plumas aquilo que ela já carregava como essência: a celebração do exagero, a crítica ao excesso e a alegria do olhar penetrante.

Poucos conhecem, porém, o outro lado dessa divindade. Momo possuía uma beleza rara, quase impossível de ignorar, mas coberta pela máscara da ironia, aquela que transformava o sorriso em julgamento, e o encanto em comentário mordaz. Filho de Nix, a deusa da noite, nasceu entre mais ou menos vinte e um irmãos e irmãs, figuras do mistério, da escuridão e da luz: Orfeu, senhor dos sonhos; Hécate, guardiã da magia obscura; outros ainda mergulhados em sombras que poucos ousariam nomear; e dois irmãos de luz, representantes do bem, da clareza e da bondade que equilibravam o destino familiar. Esse panteão particular de irmãos e irmãs revela que Momo não era apenas crítica ou riso: era herança da noite, herança da sombra, mas também portadora de um lampejo de luz, um equilíbrio tênue entre o encanto e a corrosão, entre a diversão e a consciência do limite, mesmo quando ninguém mais parecia perceber.

Na trajetória de Momo, da mitologia grega ao reinado carnavalesco, há sempre essa tensão entre presença e máscara, entre beleza e ironia, entre juízo e folia. Momo, filha da noite, senhora do sarcasmo e do excesso, atravessa séculos para ensinar que rir é também compreender; que satirizar é, muitas vezes, intervir; e que até o mais belo e perfeito dos seres precisa de uma sombra para existir.

O DOCE CHIACCHIERE: UM TRIBUTO IRRESISTÍVEL AO ESPÍRITO DE MOMO

Entre máscaras, serpentinas e o riso que percorre as ruas, surge um deleite que, sem jamais ter sido concebido para tal, parece carregar a própria essência de Momo: trata-se do Chiacchiere. Também conhecido por frappe, bugie ou cenci, ele é uma tradição do carnaval italiano, um fragmento de história transformado em prazer efêmero. Sua massa fina, delicadamente frita, estala sob os dentes, polvilhada de açúcar ou mergulhada em mel, oferecendo uma experiência que vai além do sabor: é um gesto de transgressão, um estalo de alegria que lembra o riso mordaz e ácido do deus da ironia.


A história do Chiacchiere remonta ao Renascimento italiano, especialmente nos salões de Veneza, Roma e Florença, onde o carnaval florescia com pompa e excessos. O nome, que significa literalmente “conversa fiada” ou “falatório”, sugere um vínculo simbólico irresistível com a sátira e o espírito crítico: cada mordida é um pequeno comentário, um sussurro de travessura que evoca a liberdade da língua solta, do riso irreverente e da crítica sutil. Embora o doce não tenha sido inspirado por Momo, podemos imaginar que, ao degustá-lo durante a folia, sentimos a presença da divindade: o estalo, a leveza e o prazer contêm o mesmo humor ácido que ele personificava.

O Chiacchiere é apenas um dos muitos doces que pontuam o carnaval italiano, herança viva das celebrações que acompanharam séculos de tradições politeístas. Assim como as máscaras e os desfiles evocavam antigos deuses, rituais e festivais de rua, a confeitaria carnavalesca transformava farinha, açúcar e gordura em símbolos de fartura, prazer e transgressão temporária. É nessa tradição que o Chiacchiere encontra seu charme: não como homenagem intencional a Momo, mas como um lembrete comestível de sua presença invisível, da ironia que atravessa as festas e da liberdade que o carnaval sempre celebrou.

Experimentar um Chiacchiere, então, é mais do que um gesto gastronômico: é tocar com os sentidos uma história que atravessa séculos. É provar a ironia convertida em doçura, a crítica transformada em riso, e o instante efêmero da festa transformado em memória. Nesse pequeno pedaço de massa estaladiça, a tradição carnavalesca se mantém viva, lembrando que, mesmo quando esquecemos os deuses, sua essência pode se manifestar nos lugares mais inesperados — na conversa fiada, no riso compartilhado, e no estalo de um doce entre os dentes.

CONCLUSÃO – O ECO DE MOMO NO CARNAVAL E NO TEMPO

E assim, ao fechar este percurso, compreendo que Momo nunca foi apenas um rosto mascarado ou um personagem festivo. Filho da Noite, irmã de deuses sombrios e luminosos, guardião da ironia e da crítica, ele atravessou a História como um sopro de lucidez e riso cortante, expondo falhas e imperfeições com a precisão de quem vê além do véu das aparências. Nos antigos mitos gregos, Momo julgava todos e tudo com a perspicácia de quem conhece o limite da criação. Sua expulsão do Olimpo não foi derrota, mas a afirmação de que a crítica absoluta, como o riso absoluto, precisa de liberdade para existir.

Quando a tradição romana o uniu a Comos, deus da festa, nasceu o que chamamos de Rei do Carnaval: a síntese perfeita entre desordem e lucidez, excesso e consciência, riso e julgamento. O Rei Momo, coroado e exaltado nos salões e ruas, tornou-se a personificação da celebração, ao mesmo tempo anfitrião e crítico, rei e bufão, mestre da orgia e do sarcasmo. Cada gesto da folia, cada passo de dança, cada máscara que se ergue, é herança dessa fusão: a consciência de que a alegria mais plena carrega sempre uma sombra de lucidez, e que a liberdade total pede o contraste da crítica, ainda que suave ou disfarçada.

E mesmo na gula das festas, Momo permanece. Basta olhar para o Chiacchiere, aquele estalo doce e efêmero, para perceber a presença invisível da ironia. O simples gesto de morder um pedaço de massa fina, frita, polvilhada de açúcar, é reencontrar o espírito da conversa fiada, do falatório ácido, do comentário mordaz e leve. O doce não foi feito para ele, mas carrega a analogia perfeita: a celebração da vida e do riso, com todos os excessos e sutilezas do carnaval. Cada Chiacchiere é um fragmento de História, uma lembrança de que o espírito politeísta, a música de Comos, e a crítica de Momo continuam vivos em nossas mãos, nossas bocas e nossos olhos atentos à festa.

No final, Momo não é apenas lenda, crítica ou figura carnavalesca. Ele é o fio que conecta a antiga mitologia ao presente, a ironia à alegria, a sombra à luz da festa. Ao percorrer seus passos — da crítica implacável do Olimpo, à fusão com Comos e ao reinado efêmero e magnífico do carnaval, até o riso crocante de um Chiacchiere — sentimos a força de uma ideia que atravessa milênios: que a festa, para ser verdadeira, precisa de consciência; que o riso, para ser profundo, precisa de lucidez; que a tradição, para sobreviver, precisa transformar mitos em gesto cotidiano, e ironia em prazer compartilhado.

Momo permanece, invisível e irresistível, entre máscaras, músicas e doces, lembrando que o mundo, por mais sério que pareça, sempre poderá ser visto com olhos de crítica e boca de riso. E que o verdadeiro espírito do carnaval é exatamente isso: o encontro entre a transgressão e a sabedoria, o riso e a reflexão, a máscara e o rosto que se ergue por trás dela, sorrindo, sempre. 

Chiacchiere

Ingredientes (rende cerca de 40 unidades)

500 g de farinha de trigo tipo 00 — a mais fina e ideal para a textura crocante

70 g de açúcar granulado

50 g de manteiga amolecida (temperatura ambiente)

3 ovos médios

1 gema adicional para enriquecer a massa

30 ml de grappa, vinho branco seco ou licor de sua preferência (confere leveza e aroma)

1 pitada de sal fino

Óleo neutro para fritar

Açúcar de confeiteiro para polvilhar por cima quando estiver pronto ou calda de açúcar ou mel

Modo de Preparo: Em uma tigela grande, peneire a farinha e o açúcar juntos. Adicione a pitada de sal. Faça uma cavidade no centro e coloque os ovos inteiros e a gema. Acrescente a manteiga amolecida e, se desejar, a grappa ou vinho — isso ajuda a massa a ficar mais leve e perfumada.

Misture todos os ingredientes inicialmente com um garfo e depois comece a sovar com as mãos até obter uma massa lisa e homogênea, levemente firme. Envolva a massa em pano de prato (ou filme plástico) e deixe descansar por cerca de 20 a 30 minutos à temperatura ambiente — isso facilita esticá-la depois.  Polvilhe levemente uma superfície limpa com farinha. Abra a massa com um rolo até que fique bem fina — quase translucente.  Corte tiras ou formas retangulares com uma faca ou cortador de massa. Espanhole (faça um corte, ou dois, no centro de cada retângulo) se quiser a forma tradicional. Aqueça óleo abundante em uma panela funda — a temperatura ideal é em torno de 170 °C. Frite poucas unidades por vez para que o óleo não esfrie demais.  Ao fritar, os doces vão inchar ligeiramente e dourar por igual. Vire para cada lado até ficarem crocantes e dourados.  Retire com uma escumadeira e coloque sobre papel absorvente para eliminar excesso de óleo. Polvilhe generosamente com açúcar de confeiteiro enquanto ainda estão mornos — isso cria a aparência branca de inverno e intensifica o sabor doce. 

Dicas e Variações – para Aroma extra: adicionar raspas de laranja ou limão na massa intensifica o perfume e é tradicional em muitas regiões italianas. Versão assada: se preferir mais leve, elas podem ser assadas em forno quente até dourar, mantendo parte da crocância e reduzindo a gordura.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

OS TRÊS REIS MAGOS: QUANDO A BÍBLIA CITOU MAGIA, CIÊNCIA OCULTA E ESTRANGEIROS PARA ANUNCIAR O QUE O PODER SE RECUSOU A ENXERGAR


Algumas histórias perduram não por fidelidade ao acontecido, mas pelo modo delicado como passam de boca em boca. São polidas, adoçadas, tornadas pequenas o bastante para repousar no colo da crença. Sobrevivem porque chegam cedo, quando a infância ainda aprende a escutar. As tramas que se estendem da Natividade à Epifania oferecem esse desenho: narrativas atravessadas por controvérsias, repetidas com precisão quase artesanal, sustentando convicções por mais de dois mil anos. O que nos alcança vem envolto em ouro simbólico; sob esse brilho, percebe-se um esqueleto mais áspero, menos dócil, tenso de conflitos e de impasses técnicos — sobretudo para quem busca datas, vestígios, chão. Enxergar isso pede um gesto inaugural de lucidez: notar o instante em que o encanto afrouxa e os fios da engrenagem se deixam ver.

Para mim, até as narrativas nos colonizam. Chegam mansas, domesticadas. Séculos de escovação lhes limaram as farpas; foram rearranjadas para não ferir, compostas para parecerem seguras. O fulgor que sobra funciona como ornamento; a ossatura, quando observada de perto, sugere outro desígnio. Ler esses episódios com atenção exige acolher o momento em que o fascínio cede à suspeita, e a história, enfim, confessa a própria carpintaria.

Talvez seja aí que a fenda se abre: no instante em que aprendemos a distinguir o brilho do artifício que o sustenta. Entre a história sagrada e a história doméstica, algo em nós amadurece sem alarde. Não é perda, é deslocamento. O mundo não se desfaz; ele muda de voz. Aquilo que antes descia envolto em mistério passa a revelar as mãos que o sustentam, humanas, falíveis, cheias de intenção. A crença não cai de um golpe — ela se dobra, como papel bem vincado, até caber numa forma mais estreita de verdade. É desse aprendizado silencioso que nascem as primeiras perguntas, aquelas que não pedem resposta imediata, apenas coragem para serem feitas. E uma delas, inevitavelmente, assume a forma mais simples e mais reveladora de todas.

Até quando eu acreditei em Papai Noel?

Essa pergunta costuma vir carregada de nostalgia alheia, mas comigo ela nunca encontrou terreno fértil. Não caí no conto do vigário. Não atravessei o espanto nem tropecei no engano. Não porque fosse especialmente brilhante — apenas atento. Desde muito cedo percebi que os presentes não atravessavam chaminés (embroa l a na minha casa da serra tivesse uma, a maioria das casas dos cearenses não tem), nem obedeciam ao passo improvável de renas fabulosas. Vinham de mãos conhecidas, cuidadosas, cansadas às vezes. Eram mãe, pai, avós, tios e tias, padrinhos e madrinhas curvando a realidade com delicadeza para que ela coubesse inteira dentro da infância.

Ainda assim — e isso importa — eu amava a magia. Sempre gostei de histórias. O gesto profundamente humano de inventar abrigo onde o mundo é duro demais, excessivamente literal. Eu sabia que era encenação. Eu via os fios, reconhecia o palco, mas escolhia sustentar a cena. Um acordo silencioso com o imaginário. Não por ingenuidade, mas por ternura. Havia afeto nesse fingimento compartilhado, uma forma de cuidado que não pedia verdade, apenas presença.

Com o tempo, aprendi a enxergar melhor essas narrativas: suas origens tortuosas, seus remendos discretos, as intenções que respiram por baixo do enredo. Acreditei, então, estar pronto para todas as quedas simbólicas que me aguardavam — como se o conhecimento fosse um amortecedor, como se compreender fosse suficiente para não doer.

Eu estava errado.

Porque nada me atingiu com tanta força quanto perceber, por conta própria, que o mundo jamais soube ao certo quantos eram os chamados reis magos. Aquilo, sim, foi um abalo. Um choque seco, sem aviso. Fiquei desnorteado — e, sendo honesto, tomado por uma fúria íntima, quase infantil. Não pela ausência de resposta, mas pelo excesso de invenção. Três. Sempre três. Um número repetido até ganhar peso de rocha. Com nomes fixos, rostos fáceis de reconhecer, origens repartidas com zelo didático, funções que pareciam ensinadas em cartilha. Um sistema fechado, confortável, polido pela repetição até adquirir aparência de certeza.

E então, de súbito, o chão cede. O que parecia firme revela-se névoa. O número escapa, os nomes se desfazem, a própria ideia de “reis” perde contorno. Nada daquilo se sustenta sem o apoio insistente da narrativa. O que resta é um campo aberto, indócil, onde a história não oferece corrimão. Foi nesse instante que compreendi: não era a dúvida que doía, mas a consciência de ter sido conduzido por tanto tempo por uma arquitetura invisível, erguida mais para acalmar do que para dizer. E ali, entre a ruína do símbolo e o silêncio que se seguiu, algo em mim deixou de aceitar o conforto como verdade.

O absurdo não estava na lenda existir. Estava em como ela se cristalizou. Como se alguém tivesse decidido que a complexidade precisava ser domada, simplificada, embalada para consumo cultural. E ali, curiosamente, algo em mim ruiu com mais força do que quando percebi que Papai Noel era fruto de lendas antigas, marketing moderno e boa vontade coletiva.

No fundo, talvez tenha sido isso: perceber que os reis magos compunham uma história intrincada, fraturada, atravessada por vazios — e que, apesar disso, continuava a se oferecer como narrativa encerrada, limpa, sem arestas. Aquilo me tocou mais fundo do que qualquer desilusão da infância. Porque ali não se tratava apenas de fantasia. Ali estavam história, teologia, cultura, entrelaçadas num mesmo gesto de contenção. Era o mundo adulto organizando o mistério para não precisar sustentá-lo no olhar.

Foi quando entendi que o incômodo não vinha da perda do encanto, mas do modo como ele fora administrado. Não me doía que o mistério existisse; doía que ele tivesse sido domesticado. Que o desconhecido fosse reduzido a forma, número, nome, hierarquia — como se o indizível precisasse, a qualquer custo, caber numa moldura reconhecível. Havia nisso uma pressa por sentido, um medo antigo do vazio, uma necessidade quase ansiosa de fechar o que nasceu aberto. Era o mundo adulto organizando o mistério para não ter de encará-lo.

Talvez ali tenha começado outra forma de perceber a minha atenção. Menos disposta a aceitar histórias prontas, mais inclinada a escutar as fissuras. Aprendi que são elas que respiram. Que o que falta, muitas vezes, diz mais do que o que foi cuidadosamente preenchido. E que certas narrativas só revelam sua verdade quando param de tentar nos consolar.

E falo tudo isso porque, no dia 26 de dezembro de 2025, meu amigo Vinicius Madureira — que possui o raro dom de lembrar das pessoas com descobertas que realmente importam — me enviou uma matéria. Um estudo sociológico francês, que se debruçava sobre algo aparentemente simples: a maneira como crianças vivenciam o mito do Papai Noel. Mas, como sempre, nada ali era simples de fato.

Obrigado, Viny. Obrigado por pensar em mim de um jeito que realmente ilumina. Esses gestos — essa atenção, essa partilha — são presentes que carregam algo de raro: cuidado, generosidade e o encantamento que só existe quando alguém escolhe oferecer conhecimento com afeto. Presentes que não cabem em caixas, mas que permanecem, vivos, muito depois de serem entregues.

A matéria apresentava os resultados de uma pesquisa que integra o livro “Premières Classes – comment la reproduction sociale joue avant six ans” (Primeiras Classes – como a reprodução social importa antes dos seis anos), publicado em 5 de setembro de 2015. As autoras, Frédérique Giraud e Gaële Henri-Panabière, da Universidade Paris Cité, investigam como as desigualdades sociais moldam percepções, aprendizagens e práticas culturais desde a primeira infância — antes mesmo dos seis anos, quando a maioria das crianças ainda está na pré-escola.

O estudo trazia à tona algo inquietante: a relação com o mito de Papai Noel muda conforme a posição social. Nas famílias das classes populares, a fantasia tende a se prolongar. Ali, o encantamento é cultivado com engenhosidade, inventividade, insistência quase obstinada. E vale tudo para manter viva a magia da infância. Não é ignorância: é escolha simbólica, um gesto de proteção contra um mundo que cobra cedo demais, que exige cedo demais.

Já nas famílias de classe média ou alta, o movimento é distinto. A verdade chega antes, ou o questionamento é estimulado. O mito é visto como uma “mentira desconfortável”, algo que deve ser desmontado — não por malícia, mas para exercitar o pensamento crítico. Papai Noel deixa de ser figura literal e se transforma em instrumento pedagógico: um convite à reflexão, à análise, à suspeita. A fantasia é reconfigurada, contida, subjugada à função educativa. O encantamento se torna lição, o mistério se torna metáfora. E, nesse gesto, perde-se um pouco da espontaneidade do assombro, substituída por um aprendizado consciente — valioso, sem dúvida, mas de outro tipo, menos visceral, menos mágico.

O texto dizia que as diferenças começam cedo. Antes dos seis anos. Antes da alfabetização formal. Antes que a criança saiba explicar o mundo, ela já aprendeu como o mundo funciona simbolicamente. Em alguns lares, o mito é abrigo. Em outros, é experimento intelectual. E a pesquisa deixa claro: essas escolhas não são neutras, nem apenas pessoais. Elas refletem estruturas sociais mais amplas, condições materiais, expectativas de futuro.

Depois de ler tudo isso, fiquei inevitavelmente reflexivo. Nasci em uma família de classe média. Descobri cedo que Papai Noel não existia — mais ou menos na mesma idade das crianças francesas descritas no estudo. Mas, ao mesmo tempo, eu amava histórias de fantasia. E, conscientemente, ajudava a mantê-las vivas para as outras crianças. Um comportamento ambíguo, talvez terapêutico, talvez digno de análise clínica mais profunda. Fica para a terapia.

Ainda assim, volto ao ponto inicial: nada me atingiu com tanta força quanto perceber que os reis magos são uma construção instável, frágil, e, mesmo assim, persistem como certeza cultural. Papai Noel, eu aceitei perder; os magos, não. Talvez porque ali não se tratasse apenas de infância, mas de como eu lidava com o desconhecido. Com o que não se fecha, com o que escapa, com o que insiste em permanecer sem forma, sem nome, sem número. E foi nesse espaço aberto que percebi a pulsação da história, que senti o mistério se recusar a ser domesticado. Foi ali que aprendi — ainda que de maneira lenta e silenciosa — que nem tudo precisa caber em molduras confortáveis para continuar a me tocar.

Quem sabe um dia essas pesquisadoras francesas decidam pousar sua lente sobre esse território confuso que me habita — risos. Até lá, resolvi iniciar o movimento. Dar o primeiro passo. Narrar a partir do meu próprio ponto de observação. Desatar, com cuidado, aquilo que foi montado em excesso. Sustentar o olhar sobre o que foi simplificado demais para ainda merecer o nome de verdadeiro.

E que isso também funcione como uma homenagem ao Viny. Pelas partilhas. Pelas provocações feitas sem ruído, mas cheias de intenção. Pelos sinais lançados no céu comum dos dias — pequenos brilhos que, de repente, me fazem erguer os olhos, afastar a cadeira, e lembrar que pensar também pode ser um gesto de amizade.

ONDE REIS MAGOS ENTRAM NA HISTÓRIA

Eles surgem de maneira discreta, quase lateral, como se não precisassem de permissão para existir. O texto sagrado já os põe em movimento antes mesmo de lhes emprestar contornos. Vindos do Oriente — diz-se apenas isso. Homens atentos ao céu, decifradores de sinais, viajantes que aprenderam a escutar o tempo nas curvas da luz. No relato de Mateus, aparecem sem genealogia, sem número certo, sem feições atribuídas. Nada além de função e gesto: viram algo no céu e partiram.

E é justamente essa ausência que os torna tão inquietantes. Porque sem definição, sem forma, eles escapam do conforto da certeza. Cada leitor é obrigado a preencher os vazios, a imaginar o que não foi dado. É nesse espaço entre o visível e o indizível que eles permanecem vivos, insistentes, misteriosos. Não se deixam domesticar, não cabem em regras. E talvez seja por isso que, ainda hoje, continuam a nos ensinar: sobre atenção, sobre risco, sobre o que significa seguir um brilho mesmo sem mapa, sem número, sem garantia.

Eles aparecem poucas vezes na Bíblia, mas deixam rastros que persistem, como pegadas rápidas demais para serem ignoradas. O texto é econômico, quase seco, e talvez por isso tão poderoso. “Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, nos dias do rei Herodes, eis que uns magos vindos do Oriente chegaram a Jerusalém” (Evangelho segundo Mateus, capítulo 2, versículo 1) — assim se abre a cena, sem adjetivos, apenas o fato nu da chegada.

Em traduções mais diretas, a frase se comprime ainda mais: “Magos do Oriente vieram a Jerusalém” (Mateus 2:1), como se o simples verbo vir fosse suficiente para definir toda a existência deles. Logo depois, surge a pergunta — e ela se torna o eixo da narrativa: “Onde está o rei dos judeus que nasceu? Porque vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo” (Mateus 2:2). O texto concentra-se nos verbos ver e vir, como se toda a teologia estivesse contida nesse deslocamento, nesse movimento provocado por um sinal que rompe a distância e exige resposta.

Mais adiante, a cena se torna quase silenciosa, íntima: “E, entrando na casa, acharam o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, o adoraram; e abrindo os seus tesouros, lhe ofereceram presentes: ouro, incenso e mirra” (Mateus 2:11). Não se fala de números, nomes ou aparência; sobra apenas o gesto, a reverência e os objetos. É essa economia de palavras que transforma a passagem em um espaço aberto, onde o leitor é convidado a imaginar, completar, sentir. Cada ausência — de rosto, de contorno, de detalhe — funciona como um eco, um chamado para que nos aproximemos do mistério não com explicações, mas com atenção, respeito e curiosidade.

Por fim, a saída é breve e carregada de consequência: “E, avisados em sonho para que não voltassem para junto de Herodes, retiraram-se para a sua terra por outro caminho” (Mateus 2:12). Algumas traduções registram outro caminho, outras dizem um caminho diferente — mas o sentido permanece intacto. Eles saem da história como entraram: em movimento. E é exatamente assim que o Evangelho segundo Mateus os deixa, localizados com precisão nos versículos, mas abertos o suficiente para que séculos inteiros tentassem completar o que o texto escolheu não dizer.

A ideia permanece: eles não voltam iguais. Entram na narrativa pela observação do céu e saem dela transformados, deixando no texto apenas essas frases dispersas, suficientes para que séculos inteiros se ocupassem em preenchê-las.

O mundo, porém, não suporta personagens sem contorno por muito tempo. Aos poucos, a tradição lhes ofereceu o que o texto não deu: estabilidade, simetria, nomes, rostos. Tornaram-se três — número suficiente para equilibrar a cena, para justificar os presentes, para caber no imaginário. E receberam nomes: Gaspar, Baltazar e Belchior. Cada um passou a carregar uma identidade própria, uma origem distinta, uma aparência reconhecível. O Oriente, vasto e impreciso, foi organizado em figuras individuais.

   Três Reis Magos, mosaico, igreja de São Apolinário Novo, c. 565, Ravena, Itália. Uma das representações mais antigas dos reis magos. Na parte superior do mosaico, lê-se seus nomes. Eles foram representados usando gorros frígios, chapéu originário da Ásia Menor.

Esses homens foram descritos como sábios vindos de terras distantes, representantes de mundos antigos, conhecedores de saberes profundos. A iconografia lhes atribuiu idades diferentes, tons de pele variados, trajes exóticos, como se ali estivesse condensada a pluralidade do mundo conhecido. Tornaram-se estrangeiros por excelência, trazendo consigo não apenas presentes, mas o peso simbólico de culturas inteiras.

Completando o fio da narrativa, eu penso nos nomes que agora todos conhecem: Melchior, Gaspar e Baltazar. Nenhum deles aparece na Bíblia. Surgiram muito depois, na tradição cristã medieval, nos textos europeus entre os séculos V e VIII d.C., quando os magos começaram a ganhar contornos, histórias próprias, faces mais definidas nas lendas e hagiografias.

Melchior é descrito como idoso, de pele clara, trazendo ouro. Gaspar, jovem, de pele clara ou média, carregando incenso. Baltazar, mais velho ou de pele escura, oferecendo mirra. Cada detalhe, cada nome, foi acrescentado não por acaso: eram símbolos. Representavam os três continentes conhecidos na época, as diferentes idades humanas, a variedade de presentes com sentidos próprios.

É um exemplo clássico de como a tradição se encarrega de preencher lacunas deixadas pelo texto original, de como a imaginação humana se debruça sobre o que falta. Um episódio breve, seco, econômico na Bíblia transformou-se, com o tempo, em história rica, visual, quase palpável. E é nesse processo — de ausência a forma, de sombra a rosto — que percebo como as histórias que insistem em atravessar os séculos carregam não apenas fatos, mas também os desejos, os medos e as necessidades de quem as conta.

Os presentes, por sua vez, tornaram-se inseparáveis deles. Ouro, incenso e mirra. O ouro, metal de reis e impérios, associado à riqueza e à autoridade. O incenso, perfume que sobe, ligado ao sagrado, ao que atravessa o ar e se oferece ao divino. A mirra, resina amarga, usada para ungir corpos e preservar a carne diante da morte. Cada objeto ganhou significado, função, destino. Nada ali foi considerado aleatório. Tudo passou a falar.

Ao longo dos séculos, esses personagens foram registrados, representados, celebrados. Pinturas os mostraram ajoelhados. Manuscritos os fixaram em rotas precisas. Tradições narraram seus caminhos, seus reinos, seus destinos finais. Foram chamados de reis, vestidos como reis, lembrados como reis. A história lhes concedeu coroas, mesmo quando o texto não as menciona. Concedeu-lhes tronos invisíveis, títulos duradouros, uma permanência que atravessou idiomas e continentes.

Assim, os Três Reis Magos entraram definitivamente no imaginário ocidental: sábios do Oriente, guiados por uma estrela, portadores de presentes raros, testemunhas de um nascimento extraordinário. Personagens completos, reconhecíveis, quase familiares. Fixados na memória coletiva como parte inseparável da narrativa do Natal, ocupando um lugar silencioso, porém fundamental, na cena que o mundo aprendeu a repetir ano após ano.

E está registrado de forma crua: eram estrangeiros, homens de outro mundo, portadores de saberes que a maioria chamaria de magia, ocultismo – o alguns simplificam apenas a astrologia – isso fica conforme a compreensão de cada um. Para muitos, a linha entre bruxo e sábio era tênue, quase invisível; eles não vinham apenas com ouro, incenso e mirra, mas com o peso do conhecimento, das estrelas e do invisível. Conheciam as profecias antigas, percebiam que uma delas finalmente se cumpria, e partiram para reverenciar algo maior, um poder que transcendia toda medida humana. Curvaram-se diante dele com uma certeza silenciosa. Não buscavam reconhecimento, nem narravam sua própria história; existiam apenas para realizar o gesto que lhes fora destinado. E, mesmo sem palavras, impressionavam — não pelo que possuíam, mas pela presença que carregavam, intensa e impossível de ignorar.

Eles estiveram ali. Chegaram. Trouxeram o que tinham. E, por ora, é tudo o que se diz.

PELAS BORDAS DO PRESÉPIO

Sempre desconfiei do Natal contado do centro. Do Natal perfeitamente iluminado, sem sombras, sem ruídos, sem arestas. Há algo de excessivamente comportado nas versões que nos entregam prontas, como se a história tivesse nascido já enquadrada, domesticada, incapaz de provocar qualquer desconforto. Talvez por isso prefira olhar para essa narrativa pelas laterais, pelos cantos menos visitados do presépio, onde o feno não está tão limpo e as figuras parecem prestes a sair do lugar.

Detalhe do presépio napolitano mais antigo conhecido no Brasil, um conjunto do Século XVIII, com mais de 1600 peças, que retrata a vida de Nápoles e está no Museu de Arte Sacra de São Paulo.

É ali que os magos incomodam. Porque eles não se encaixam. Não pertencem ao cenário. Não falam a língua certa, não vêm do território certo, não carregam a credencial correta. Entram na história como quem atravessa uma sala sem pedir licença, trazendo consigo um outro vocabulário, um outro modo de compreender o mundo.

Olhar o Natal pelas bordas é perceber que, antes de ser aconchego, ele foi ruído. Antes de ser consenso, foi estranhamento. E que talvez a tradição tenha trabalhado duro demais para transformar em doçura aquilo que, na origem, era profundamente perturbador.

Esse ensaio nasce desse incômodo. Da suspeita de que aquilo que mais se repete é justamente o que menos se escuta.

O PRESÉPIO E A INDIGNAÇÃO DAS COROAS

Comecei a me dar conta da estranheza dos magos quando, todo ano, montava o presépio lá de casa. Era um mundo inteiro em miniatura, cheio de figuras de gesso já gastas pelo tempo, cada uma com sua cor desbotada, cada detalhe marcado pelo uso e pelo cuidado de anos. E lá estavam eles, os magos: altos, vestidos com mantos que pareciam tecidos de outro mundo, carregando presentes em caixas que caberiam nos meus braços, mas cujos os conteúdos não se podia ver – só se sabia pela tradição. Estranhos e silenciosos, chegavam de fora do presépio, de um Oriente que eu só podia imaginar, e, mesmo assim, ocupavam o espaço como se fossem parte essencial da cena.

Nunca eram apenas decoração. Havia algo neles que me inquietava: o olhar voltado para o menino na manjedoura, a postura que sugeria saber mais do que qualquer adulto ao meu redor. Eram estrangeiros que conheciam a magia das estrelas, ou pelo menos algo tão próximo disso que ninguém ousaria chamar de superstição.

Eu passava horas planejando o desenho da estrebaria, a posição das pedras, o formato da gruta, ajustando cada detalhe para que todas as peças se encaixassem com harmonia e sentido. Cada ano era uma pequena arquitetura sagrada, e cada alteração da paisagem exigia cuidado para acomodar aquelas imagens que traziam consigo histórias, símbolos e mistérios.

Até o dia em que, segurando um camelo que acompanhava um dos magos, percebi algo que me pareceu um ultraje: eles não usavam coroas – era mais um tipo de turbante, com algo pintado de dourado, não uma daquelas coroas pontudas que as crianças costumam associar. “Como ousam?”, pensei, indignado. Era uma provocação silenciosa ao mundo que eu achava conhecer.



Ainda não havia internet, mas eu já me sentia um pequeno investigador, e não hesitei: larguei tudo e corri até a melhor papelaria da cidade, carregando a esperança quase absurda de encontrar, entre cartões de Natal, algum vestígio das coroas desaparecidas. Folheei pilhas de papéis brilhantes, observei ilustrações minuciosas, cores que saltavam aos olhos, e me deparei com a confusão: alguns cartões mostravam os magos coroados com solenidade; outros, completamente sem ornamento, como se a tradição tivesse vacilado, indecisa, incapaz de fixar seu próprio gesto. A cada página, o mistério se multiplicava, e eu percebia que, mesmo em miniatura e em cores vivas, a história dos magos continuava a escapar da ordem que o mundo insistia em me dar.

Tentei acalmar meu coração, larguei os cartões e voltei para casa ainda indignado. Reorganizei o presépio, terminei cada detalhe, e esperei que a noite caísse para ir à biblioteca pública. Foi ali, entre livros, enciclopédias e manuscritos, que a verdade começou a se desenhar. A observação do texto, dos registros históricos e das imagens antigas me deixou claro que, de fato, eles não precisavam de coroas. Aquela indignação inicial transformou-se em fascínio: não se tratava de erro, mas de escolha simbólica, de liberdade que a tradição posterior se esforçou em controlar, e que, ali, diante de mim, continuava a desafiar o que eu achava que sabia sobre os magos e seu lugar no Natal.

ELES NUNCA USARAM COROAS

O texto não os chama de reis. Em nenhum momento. Não há tronos, não há palácios, não há exércitos acompanhando a cena. O Evangelho segundo Mateus, único a mencioná-los, usa um termo grego específico e carregado de significado: “μάγοι” (magoi). Magos. A palavra aparece sem justificativa, sem ressalva, sem pedido de desculpas. Não há tentativa de suavizar seu peso cultural. Eles são apresentados assim, de forma direta, quase desconcertante.

Isso muda tudo.

Porque magoi não designa governantes, mas especialistas de outro tipo de poder. Não o poder da espada, do imposto ou da herança dinástica, mas o poder da interpretação. Eram homens ligados a tradições intelectuais antigas, sobretudo da Pérsia e da Babilônia, associados ao estudo dos astros, à leitura dos ciclos do tempo, à observação meticulosa do céu como linguagem. A Bíblia, nesse ponto, não se explica. Apenas registra: foram magos que viram, magos que caminharam, magos que chegaram.

A ausência de reis é gritante justamente porque, séculos depois, ela foi completamente preenchida. A tradição cristã, aos poucos, os transformou no que o texto nunca afirmou que fossem. Coroou-os. Deu-lhes tronos imaginários. Revestiu-os de autoridade política. Talvez porque reis sejam mais fáceis de administrar simbolicamente do que magos. Reis pertencem à lógica conhecida do poder. Magos, não.

Ao torná-los reis, a narrativa posterior suaviza o escândalo. Neutraliza a estranheza. Um rei ajoelhado ainda é compreensível; um mago estrangeiro, leitor de estrelas, reconhecendo algo que o poder local não percebeu, é muito mais difícil de engolir. A coroa funciona quase como um anestésico simbólico. Dá respeitabilidade ao que, no texto original, era radicalmente deslocado.

E, no entanto, Mateus não recua. Ele mantém a palavra. Não troca magoi por nada mais palatável. Não substitui o saber estranho por autoridade familiar. O resultado é uma narrativa que começa citando magia, ciência antiga, conhecimento estrangeiro — e faz isso sem constrangimento algum. Como se dissesse, em silêncio, que a verdade nem sempre nasce dentro das fronteiras corretas.

Talvez por isso essa história tenha sido tão cuidadosamente adornada ao longo do tempo. Porque o que ela diz, em sua forma mais simples, continua sendo perigoso: às vezes, quem vê primeiro não é quem manda. E às vezes, o céu fala antes que o palácio perceba.

MAGIA COMO CONHECIMENTO, NÃO TRUQUE

Ora, ora… quem diria que um dos textos fundadores do cristianismo começaria citando especialistas em magia sem nem pedir desculpas. Aqui é preciso ajustar o vocabulário antes que alguém imagine capas estreladas e varinhas: a magia daquele mundo não era truque barato nem superstição de esquina. Era conhecimento sério. Astronomia antes do telescópio, medicina antes do laboratório, filosofia antes da Universidade.

Os magos pertenciam a uma elite intelectual e religiosa, especialmente na Pérsia e na Babilônia. Registravam o movimento dos astros por gerações, cruzavam dados, calculavam ciclos. O céu, para eles, funcionava como um imenso arquivo histórico do futuro, cada conjunção, cada alinhamento planetário, cada estrela fugaz um sinal.

O termo “oculto” engana quem lê apressadamente: não significava proibido ou demoníaco. Significava apenas aquilo que ainda não estava completamente explicado. Coisa perigosíssima, aliás. Nada assusta mais uma autoridade do que alguém dizendo: “ainda não sabemos”.

Enquanto isso, os reis eram outra categoria. Reis dominam corpos: impõem tributos, comandam exércitos, mantêm ordens e fronteiras. Sua força é visível, tangível, imediata. Os magos, por outro lado, governam símbolos, interpretam épocas, percebem ciclos invisíveis que estruturam o tempo e a história. Eles não mandam em povos, não carregam a espada, não constroem impérios. Seu poder é delicado, sutil, mas radicalmente inquietante: revela que o mundo pode ser compreendido de outra maneira, que sinais no céu podem anunciar mudanças que nenhum palácio poderia impedir.

Talvez por isso, séculos depois, alguém tenha decidido transformá-los em reis. Coroar magos é uma forma elegante de neutralizar seu poder. É domesticá-los, torná-los previsíveis, encaixá-los na lógica do controle humano. A potência subversiva do saber — a capacidade de ler o invisível, de perceber o inesperado, de questionar o aparente — desaparece quando se lhes dá coroas e tronos. O que antes era inquietante, estrangeiro, impossível de ordenar, torna-se ornamentado, decorativo, aceitável.

Algo mudou no céu, e ninguém poderia precisar exatamente o quê. Talvez uma conjunção rara de planetas, uma estrela deslocando-se com um brilho diferente, ou um fenômeno tão sutil que só os olhos atentos perceberiam. Não é o cálculo que importa, nem a precisão da astronomia antiga — importa que alguém olhou para cima e sentiu que o mundo havia mudado. Para os magos, cada movimento do céu era como um texto antigo gravado em luz e sombra, um código que se revelava apenas a quem sabia interpretar. O detalhe técnico se perdeu com os séculos, mas o impacto permanece: a percepção de que algo decisivo acontecia, algo que não poderia ser ignorado.

Eles, os magos, estrangeiros de terras distantes, sem Lei, sem Templo, sem títulos formais, não hesitaram. Caminharam por desertos, atravessaram fronteiras e culturas, guiados por uma luz que falava em símbolos, não em palavras humanas. Saíram do conforto de suas tradições, movidos apenas pelo que sentiram no céu, pela convicção silenciosa de que era tempo de agir. E enquanto eles se levantavam, os especialistas locais, mestres das escrituras, guardiões da Lei e conhecedores das profecias, permaneceram imóveis. Sabiam exatamente onde o Messias deveria nascer, qual cidade o acolheria, qual linhagem ele seguiria. Sabiam tudo e, ainda assim, não moveram um passo. A erudição e a certeza se mostraram insuficientes diante da novidade: o saber não garante movimento, e a profecia, por si só, não produz coragem.

A estrela que guiou os magos não se limitava a ser um fenômeno físico. Ela era linguagem universal, atravessando culturas, tradições e fronteiras. Não exigia catequese, linhagem ou território; exigia apenas olhos atentos, disposição para se inquietar e coragem para se mover. Ela falava em sinais, e os magos, com suas mãos calejadas de estudo, interpretação e observação, decifraram o que ninguém mais ousava olhar. Essa linguagem, silenciosa e simultaneamente radical, transformava o céu em mapa de possibilidades e o mundo em território aberto à ação daqueles que ousam perceber o invisível.

E é nesse ponto que a história se revela como provocação pura, teológica e humana. Os estrangeiros, sem autoridade formal, tornaram-se atores principais de uma narrativa que o poder estabelecido não queria enxergar. Os especialistas, cheios de textos, regras e certezas, ficaram presos ao conforto da sabedoria consolidada. A diferença entre caminhar e permanecer parado não está no conhecimento acumulado, mas na coragem de permitir-se perceber, de deixar-se guiar pelo que desafia o consenso. O gesto dos magos — atravessar distâncias, questionar limites, interpretar sinais — é, acima de tudo, um convite à atenção, à curiosidade e à ousadia de olhar para além do que nos dizem que é seguro ou certo.

Neste movimento, céu e terra se encontram, fenômeno e símbolo se fundem, e a magia dos magos se revela: ciência antiga, interpretação de ciclos, saber profundo que incomoda o poder, que não se doma com tronos ou coroas, e que, mesmo séculos depois, continua a ensinar que a verdade raramente pede licença, mas exige olhos que saibam enxergar e pés que não tenham medo de caminhar.

E TROUXERAM PRESENTES QUE FALAM MAIS QUE PALAVRAS

E então vieram os presentes. Não brinquedos, não panos coloridos, não coisas que uma criança pudesse abraçar com os dedos pequenos e amolecidos pelo sono. Vieram ouro, incenso e mirra — três dádivas que, à primeira vista, dariam nó na razão de qualquer um que quisesse entender aquela cena apenas pelo valor de mercado. Eram objetos cujo custo ultrapassava tudo o que uma família pobre em uma gruta poderia desejar. Mas, para os magos, esses presentes falavam em uma linguagem que as palavras comuns jamais alcançariam.

 ouro, metal que brilha como se guardasse em si a própria luz do céu, não era apenas um símbolo de riqueza material; era uma declaração de realeza. Trazê-lo a um recém-nascido era declarar, sem hesitar, aquilo que a carne e o pano não podiam ainda expressar: reconheciam nele um rei. Naquele ouro pesado repousava uma honra que desafiava as circunstâncias humildes daquele berço de palha. Ouro fala de tronos e de autoridade, mas ali, sobre os joelhos calejados de viajantes do Oriente, ele dizia que aquela criança era digna de um poder que nenhum trono humano poderia conter.

O incenso simplesmente emanava perfume, como se os perfumes do mundo inteiro tivessem sido coletados para subir ao céu em fumaça branca. Na antiguidade, o incenso — líbanos, em grego — estava associado ao sagrado, ao altar, ao perfume das orações que sobem como preces ao invisível. Era utilizado nos templos, nos altares, na presença do divino. Ao oferecer incenso, os magos não ofereciam um adorno olfativo, mas reconheciam a divindade naquele recém-nascido, marcando-o com aquilo que era consagrado ao Além — o perfume que toca o divino antes das palavras serem pronunciadas.

E então veio a mirra, resina amarga, densa, cujas fragrâncias não celebram a festa, mas sussurram sobre o fim inevitável. Na antiguidade, a mirra tinha usos medicinais e também era empregada na preparação dos corpos diante da morte. Oferecê-la a um bebê seria, a olhos desavisados, absurdo: era como presentear uma criança com o sinal de um destino que ainda estava por se revelar. Mas os magos, que sabiam ler símbolos, a traziam como prenúncio da humanidade daquele menino e da sua entrega ao mistério que atravessaria a vida e a morte. Não era apenas um símbolo de morte física — era a própria antecipação do destino humano que aquela criança abraçaria.

Se ouro falava de realeza, se incenso elevava ao divino, se mirra lembrava da frágil carne humana — então, ali, aos pés do menino em Belém, estava descrita a totalidade de um mistério que só o coração ousado poderia suportar. Aquele não era um presente de boas intenções; era uma oferta que dizia o que as palavras não conseguem dizer: que ali coexistiam realeza, divindade e destino — luz, sopro e sombra — tudo entrelaçado no mesmo nó de vida.

E essa simbologia profunda continuou a ecoar ao longo dos séculos. A própria tradição cristã recorda que os magos, no presépio, representam a manifestação de Jesus a todas as nações e povos — desde os mais simples, como pastores, até os mais estudiosos, como os magos que vêm de longe para reconhecer o extraordinário em um bebê de mãos pequenas.

Com o tempo, essa narrativa tão rica deu origem a relíquias e tradições que circulam por séculos: corpos dos magos venerados na Catedral de Colônia, objetos associados às oferendas conservados ou imaginados em igrejas e crônicas medievais. Essas relíquias, verdadeiras ou não, falavam de amor, poder, memória e política; circulavam entre peregrinos, donas de fé, senhores e camponeses, lembrando que o sagrado não é estático, mas vivo, circulante, capaz de unir devoção, economia e memória cultural em um só gesto.

Relicário dos Três Reis Magos, obra de Nicolás de Verdun (1130-1205), catedral de Colônia, Alemanha.

No fundo, os presentes dos magos nos convidam a olhar além do valor material e a ouvir aquilo que só o silêncio dos símbolos pode revelar: que a verdadeira dádiva é reconhecer, em um mundo tão cheio de certezas, aquilo que ainda não pode ser dito com palavras, mas apenas percebido com o coração atento e a coragem de quem se dispõe a compreender a profundidade de um gesto que atravessou milênios.

A história dos magos não termina onde encontraram o menino. Ela continua, séculos depois, em pedra, metal e ossos — em formas que carregam fé, poder, memória e até estratégia humana. Uma das mais majestosas manifestações desse legado é o Relicário dos Três Reis Magos na Catedral de Colônia, na Alemanha — um santuário amplo, dourado, erguido com a ambição de abrigar aquilo que muitos acreditam ser os restos mortais de Gaspar, Melchior e Balthazar.

As relíquias teriam tido um percurso que atravessa impérios e milênios. Segundo tradições antigas, Santa Helena, mãe do imperador Constantino, teria encontrado os restos dos magos em terras orientais no século IV e levando-os a Constantinopla. Dali foram transportados para Milão pelo bispo Eustorgius, e, mais tarde, no século XII, o arcebispo de Colônia, Rainald von Dassel, os trouxe para o norte da Europa, em um gesto que misturava devoção, política e prestígio emergente para sua cidade.

Detalhe do relicário dos Três Reis Magos, catedral de Colônia, Alemanha.

O relicário que hoje domina o altar-mor da Catedral — um enorme sarcófago triplo de ouro e prata, decorado com cenas bíblicas, figuras e símbolos — é considerado o maior relicário do Ocidente medieval. Sua construção, obra-prima da ourivesaria entre os anos de 1180 e 1225, não foi apenas religiosa, mas também política: erguido para honrar e defender aquilo que se acreditava ser santo, ele se tornou um símbolo coletivamente reverenciado e um ímã para peregrinações de todo o continente.

E aqui está o cerne daquilo que significa sagrado circulante. Esses ossos, reais ou não, não permanecem no silêncio de uma tumba escondida. Eles foram expostos, venerados, carregados por líderes e reis, oferecidos como presente simbólico à própria Catedral que hoje ostenta suas supostas relíquias. Peregrinos de todos os cantos afluíam para tocar ou simplesmente contemplar o relicário, acreditando que esse contato poderia trazer cura, proteção ou graça — uma dimensão muito além de mero curiosidade histórica. Em certos dias, os crentes seguravam pequenos papéis ou tecidos que, puxados contra o relicário, adquiririam — na crença popular — uma santidade de “relíquia de contato”, objetos que também circulavam como portadores de bênçãos.

                        Catedral de Colônia, Alemanha.

O significado dessas relíquias vai muito além da questão de sua autenticidade — um debate que permanece aberto, muitas vezes impossível de resolver de maneira definitiva. O que não se pode ignorar é o valor simbólico e cultural que elas acumulam: tornam-se loci de memória, pontos onde o humano toca o divino, espaços em que a fé se cristaliza em pedras, metais e ossos. Moldam cidades, inspiram obras de arte, motivam peregrinações, sustentam economias inteiras e alimentam tradições que atravessam séculos.

Para muitos medievalistas, a chegada das relíquias a Colônia transformou a cidade por completo. Elas não apenas reforçaram sua importância no mapa cristão da Europa, mas também influenciaram ritos, festas e até o brasão da cidade — que ostenta três coroas, lembrança silenciosa da presença que ali se acreditava habitar. Cada detalhe, cada símbolo, carregava a memória de um gesto antigo, de um poder que se recusava a permanecer invisível.

E assim, a economia do sagrado se revela em suas várias faces: não apenas como devoção sincera, mas como construção de identidade social, espaço político de afirmação de poder e centro de circulações de fé que não podem ser reduzidas a simples “objetos de culto”. Esses relicários lembram que o sagrado circula, transita e se transforma, e que aquilo que começa como gesto de adoração (os presentes que falavam mais que palavras) pode, ao longo de séculos, tornar-se símbolo, mercado de devoção e espelho das ambições humanas — espirituais e terrenas. Mas, também é preciso falar...

DO REI QUE NÃO VIU A ESTRELA

O encontro entre os magos e Herodes não foi feito de luzes suaves nem de sorrisos serenos; foi um encontro de mundos que não se reconheciam. Herodes, o rei oficialmente no trono, não olhou para cima. Não ouviu nada no céu. Não sentiu a palavra branda de uma estrela estrangeira que anunciava um nascimento. Ele apenas viu uma ameaça. E sabe-se hoje — e isso atravessa os séculos como um sussurro incômodo — que a estrutura de poder raramente reconhece novidade como boa notícia. O poder se fortalece com certeza, com controle, com segurança de que nada vai sair da ordem prevista.

No texto sagrado, quando os magos finalmente chegam diante de Herodes em Jerusalém, ele não se alegra. Não se surpreende. E, diante daqueles homens que vieram de longe guiados por sinais celestes, ele sente medo. Medo de perder seu lugar, medo de que sua autoridade seja questionada, medo de que uma criança — uma simples criança, sem espada nem exército — seja mais potente do que seus exércitos.

O evangelho registra que ele, inquieto, chama os escribas e mestres da lei, interroga-os sobre a profecia: “Onde está o recém-nascido rei dos judeus?” Herodes queria localização precisa, domínio completo sobre informação, sobre território, sobre destino. Sua reação não é humana diante de um milagre; é burocrática. O poder sempre quer mapeamento antes de encanto, ordem antes de mistério.

Ao saber onde, ele decide agir não com paciência nem com esperança, mas com violência calculada. Ordena que todas as crianças em Belém e arredores com menos de dois anos sejam mortas. Essa ordem cruel — conhecida como a “matança dos inocentes” — não se circunscreve apenas a um ato isolado de brutalidade. É expressão de um padrão histórico: o poder que se sente desafiado pela mudança tenta suprimir a mudança pela força. Não vê possibilidade além de ameaça. Se a novidade não pode ser controlada, deve ser erradicada. Para Herodes, aquele nascimento era uma usurpação silenciosa de sua soberania. Sua resposta foi propor morte, porque o poder absoluto reconhece apenas uma linguagem: a da eliminação de tudo que possa desorganizar sua narrativa de controle.

E no meio desse confronto, enquanto Herodes trama no palácio suas ordens terríveis, os magos — que não pertenciam a redes de autoridade instituída, nem carregavam a expectativa de um trono — reagem de maneira profundamente distinta. Avisados em sonho para não retornarem à presença de Herodes, eles não obedecem às coercitivas ordens do poder, mas escolhem um outro caminho — não de violência, não de imposição, mas de fuga cuidadosa. Eles viram, silenciosamente, que a vida ali era mais valiosa que qualquer decreto real. Haviam obedecido aos sinais do céu; agora obedeciam ao chamado interior para proteger o sinal que haviam encontrado. Esse gesto, aparentemente pequeno, reverbera como resistência simbólica: não se curva diante da violência estatal, mas protege o que foi percebido como verdade mesmo quando toda ordem poderosa diz o contrário.

A narrativa, então, tece um contraste que atravessa a história: de um lado, o poder oficial que não reconhece a novidade como bem, que não recebe boa notícia, que não se comove nem se desloca para encontrar aquilo que desafia suas certezas; de outro, os estrangeiros, sem status, sem proteção legal, movidos apenas por fé e percepção, que escolhem a vida diante da morte decretada. É um lembrete cruel e luminoso ao mesmo tempo: o saber, sozinho, não produz movimento — mas o olhar atento, a coragem de se levantar e caminhar, mesmo diante da hostilidade de um poder armado, é o que torna possível a preservação do que verdadeiramente importa.

Herodes nunca falha — em sua lógica. Ele sempre vê ameaça onde deveria haver esperança. Sempre responde com violência ao inesperado. Sempre prefere a ordem rígida à transformação suave, ainda que profunda. Essa condição não é apenas de um rei antigo. Ela ecoa em estruturas de poder atemporais que veem em toda novidade um risco existencial. E é nesse choque entre o poder que mata e a coragem que preserva que a história dos magos — esses estrangeiros guiados por estrela — encontra sua força mais inquietante: a vida que surge não pode ser comprada pela espada nem soterrada pela lei; ela só pode ser reconhecida por aqueles que ousam olhar para além do próprio trono e seguir um sinal que vem do alto, silencioso, insistente.

Ao longo dos séculos, pesquisadores e estudiosos têm se debruçado sobre a história dos magos não apenas como personagem mitológico, mas como figura cultural que carrega significados profundos e estratificados. O próprio termo magoi, citado no Evangelho de Mateus, remete a um grupo social real conhecido na Antiguidade: oriundos de tradições persas, em certa época designavam uma casta de sacerdotes ligados ao zoroastrismo e à interpretação celeste, mencionados por autores como Heródoto e outros cronistas antigos. Esses homens eram respeitados por sua capacidade de interpretar o céu e traduzir sua linguagem em eventos terrestres, uma prática que, segundo estudiosos, se situava entre o religioso e o científico daquela época — algo semelhante ao que hoje entenderíamos como astrólogos e filósofos naturais.

No entanto, os pesquisadores também nos lembram que precisamos separar o que as fontes históricas realmente afirmam da tradição que se consolidou depois. O Evangelho de Mateus relata magos do Oriente que seguem uma estrela, chegando a Jerusalém e depois a Belém, mas não menciona números, nomes nem coroas, detalhes esses que a tradição posterior acrescentou ao longo de séculos de interpretação cultural e artística. A imagem padronizada de três magos chamados Gaspar, Melchior e Baltasar só começa a surgir nos séculos posteriores, fixada na iconografia cristã por meio de mosaicos, crônicas e tradições, e não no texto original.

Nas tradições medievais, essa narrativa foi expandida com riqueza de detalhes que os estudiosos reconhecem como adições interpretativas e simbólicas, não como testemunhos históricos verificáveis. Por exemplo, um texto apócrifo chamado Evangelho Armênio da Infância descreve os magos como três irmãos governantes de diferentes regiões — o rei da Pérsia, o da Índia e o dos árabes — mas esse relato aparece apenas em tradições posteriores, refletindo uma tentativa de dar contexto cultural à narrativa original, sem base nos manuscritos mais antigos.

Quanto à famosa Estrela de Belém que guiou os magos, o debate continua tão vivo quanto há séculos. Astrônomos, historiadores e teólogos modernos propuseram explicações variadas — conjunções planetárias, nascimentos estelares, cometas —, mas nenhuma hipótese se sustenta com absoluta certeza. Alguns acreditam que uma configuração rara no céu teria chamado a atenção de observadores treinados do Oriente; outros, porém, lembram que a estrela, mais do que objeto físico, funciona como símbolo teológico e narrativo: um sinal de que o extraordinário sempre anuncia algo além da compreensão comum, um ponto de encontro entre o humano e o mistério, uma luz que guia sem precisar ser mensurada.

E, finalmente, em termos de historicidade, acadêmicos críticos reconhecem que não há evidências arqueológicas ou registros contemporâneos que comprovem a jornada específica dos magos como indivíduos históricos documentados. A única fonte que os menciona é o Evangelho de Mateus, e isso leva muitos estudiosos a interpretar sua presença como parte de um dispositivo literário e teológico para expressar uma verdade mais profunda: a inclusão dos gentios, a manifestação universal do messias e o reconhecimento de sabedoria fora dos limites da Lei judaica tradicional. 

NATAL: ANESTESIA OU ESPELHO

O Natal, quando olhado de perto, deixa de ser apenas luzes e canções. Ele se revela, muitas vezes, como um espelho que reflete nossas próprias resistências. Cresci cercado de presépios coloridos, figuras de gesso, camelos, palácios improvisados no meu quarto, e cada detalhe carregava a promessa de magia, de algo que não podia ser explicado com exatidão. Mas, com o tempo, comecei a perceber algo inquietante: todo esse aparato ritualístico, toda a repetição anual das histórias, muitas vezes servia para acalmar perguntas maiores, para que o incômodo da realidade e do desconhecido não nos alcançasse. O Natal podia anestesiar, suavizar o mundo, mascarar os vazios, os conflitos, as injustiças. E foi nesse silêncio que compreendi a importância dos magos: eles nunca se deixaram anestesiar. Eles olharam para o céu, perceberam algo que não cabia nas categorias prontas do poder, e se moveram. Não esperaram aprovação, não buscaram conforto.

A coragem dos magos era, acima de tudo, atenção em ação. Eles se deslocaram porque a vida, quando anunciada de forma extraordinária, exige movimento. Não é o conforto que guia, mas o reconhecimento de que algo não fecha mais, que o mundo se alterou mesmo que ninguém queira admitir. Em contraste, muitos rituais de Natal contemporâneos repetem gestos, consolidam certezas e protegem da reflexão — transformam histórias poderosas em cenas decorativas, em imagens seguras. E aqui, o espelho se torna nítido: o que os magos fizeram era perigoso porque desafiava a complacência, porque mostrava que fé verdadeira não é assentimento cego, mas deslocamento do lugar conhecido, disposição para atravessar fronteiras, física e simbólica.

Fé, então, é movimento, não conforto. É levantar-se quando a lógica do mundo nos convida a permanecer sentados. É atravessar desertos interiores, sem mapas precisos, guiado apenas por sinais que ainda não podem ser explicados. É aceitar que o desconhecido pode ser profundo, urgente e sublime. Os magos não tinham certezas, apenas atenção, e essa atenção os tornou radicalmente humanos. Essa é a lição que permanece viva, atravessando séculos: a fé que não se acomoda, que não busca a proteção do conhecido, é perigosa e bela, porque nos obriga a olhar, a caminhar e a reconhecer sinais que muitos preferem ignorar.

O Natal, enfim, pode anestesiar ou espelhar — depende de quem se atreve a olhar. Para aqueles que ousam, como os magos, a festa revela não apenas nascimento e celebração, mas a urgência de prestar atenção, de se mover, de responder à novidade do mundo mesmo diante do medo, da dúvida e da hostilidade do poder. E é nesse gesto, silencioso e firme, que a história dos magos se mantém atual, inquietante e profundamente humana.

QUANDO O DOCE ENCONTRA A MEMÓRIA

Todo 6 de janeiro eu tento fazer um bolo de Reis diferente, como se cada forno fosse um altar e cada aroma fosse uma oferenda silenciosa. Este ano, a inspiração vem diretamente da Itália, onde o 6 gennaio não celebra apenas a Befana (a bruxa benevolente italiana tão popular no dia da Epifania; figura popular que traz doces e lembranças às crianças justamente nessa época – quase uma alusão aos Reis Magos diante do Menino Jesus — justamente o momento em que eles ofereceram ouro, incenso e mirra como verniz de significado ao mundo.

Na Itália, embora não exista um doce tão universal quanto o Roscón de Reyes espanhol, o Bolo Rei de Portugal ou a Galette des Rois francesa, surgem sobremesas criadas exclusivamente para marcar a Epifania, que carregam nos sabores e nas formas a lembrança da presença dos Magi na história cristã. Uma delas é a Torta dei Re Magi, tradição especialmente forte no norte do país, como na Ligúria. Essa ciambella decorata — um anel de massa adornado com uvetta, granella di zucchero, mandorle e canditi — evoca a coroa real e as pedras preciosas dos presentes oferecidos pelos Reis, transformando cada fatia em gesto simbólico, memória comestível e pequena celebração do extraordinário.


Essa torta, redonda e generosa, não é apenas um doce: é memória em massa e açúcar, um alimento que carrega camadas de sentido. A forma circular lembra a coroa dos Magos; os ingredientes coloridos espalhados pela superfície — canditi que cintilam como ouro, frutas secas que evocam a mirra, o perfume doce que lembra o incenso — transformam cada fatia em narrativa, contada pelo paladar, pelo olhar e pelo cheiro. É uma história que se come, uma liturgia silenciosa que atravessa séculos.

E a magia não termina na decoração. A preparação em si é ritual: em algumas versões antigas, como nas tradições europeias, guarda-se dentro do bolo uma pequena surpresa, um objeto simbólico. Quem o encontra na própria fatia é declarado, por um dia, re ou regina, e participa de uma festa que une brincadeira e memória cultural. Uma herança que ecoa os banquetes antigos, nos quais um simples fagiolo escondido tornava alguém senhor por um instante; uma tradição de abundância, partilha e celebração, que atravessa gerações e lembra que, mesmo nas coisas simples, o extraordinário pode habitar.

A Epifania, na Itália, se celebra assim: ao redor de mesas e assadeiras, com aromas que atravessam casas e gerações. Pelo país, surgem outras especialidades que acompanham essa festa — como a pinza veneta, no Vêneto, uma massa rica com figos secos e especiarias; os befanini toscanos, biscoitinhos friáveis e aromáticos; ou a fugassa d’la Befana, no Piemonte, outro pão doce ligado à festa.





Todos eles, em suas diferenças regionais, falam da mesma coisa: marcar o fim de um ciclo festivo e o início de outro, compartilhar doçura e memória em família, transformar a narrativa dos Magi em gesto concreto de partilha.

O Pan dei Re, mais recente, carrega essa mesma vibração: uma massa levedada que lembra a coroa, decorada com frutas e especiarias, celebrando a passagem do Natal para a Epifania. Ensina, mais uma vez, que a comida pode ser linguagem — onde o sabor é símbolo e a forma, história.

E assim, enquanto misturo farina, zucchero e spezie nos meus braços de cozinha, percebo que o bolo dos Magi não é apenas receita. É testemunha de como os povos italianos, geração após geração, transformaram uma história antiga em gesto concreto de festa, esperança e presença. Cada mordida lembra que o sagrado — assim como os presentes dos Magos — não cabe apenas nas páginas de textos antigos, mas também nas mesas, nos olhares que se encontram à volta delas e nas histórias que continuamos a contar: com açúcar, frutas, amor e memória.

EPÍLOGO – OLHAR PARA O CÉU, ATRAVESSAR DESERTOS, PARTILHAR MEMÓRIAS

Ao final desta jornada, percebo que os Três Reis Magos não são apenas personagens de presépios ou histórias infantis, mas guardiões de sinais que desafiam certezas. Comecei pelo texto bíblico: Mateus, de forma direta e quase subversiva, apresenta magos, não reis, homens que dominam ciência oculta, leitura do céu e interpretação de símbolos. Não há coroas, tronos ou poder político — apenas seres capazes de olhar para cima e perceber que algo decisivo acontecera. É a magia como conhecimento, não truque barato; a ciência oculta como reconhecimento de que nem tudo se explica, e que a curiosidade pode desafiar o mundo que insiste em fechar os olhos.

Eles caminharam, atravessaram fronteiras e desertos, enquanto muitos especialistas locais permaneceram imóveis, paralisados pela certeza das profecias. Esse contraste atravessa séculos: saber sozinho não garante movimento. A estrela que eles seguiram não é apenas um fenômeno físico, mas uma linguagem universal, um sinal que atravessa culturas e nos lembra, delicadamente, que a atenção e a disposição para olhar valem mais do que livros, templos ou leis.

Os presentes que carregaram — ouro, incenso e mirra — não são objetos banais, mas símbolos excessivos para um bebê: poder, sacralidade e morte, lembrando que aquela criança não caberia em categorias confortáveis. Essa simbologia ressoa séculos depois, nos relicários medievais de Colônia, onde a fé circulava junto à política e à economia, mostrando que o sagrado nunca é apenas privado: ele é memória, estratégia e partilha.

O encontro com Herodes me lembra que o poder raramente celebra novidade: teme, reage, protege o status quo. E os magos, mais uma vez, seguem firmes na coragem silenciosa de perceber o mundo em transformação, de reconhecer sinais que outros preferem ignorar.

Quando penso no presente, percebo que o Natal pode ser anestesia ou espelho. Ritual, memória, festa — ou confronto com minhas próprias certezas e desconfortos. A fé, como os magos me mostram, não é conforto imediato, mas movimento: é levantar da cadeira, atravessar o conhecido, enxergar o que o mundo insiste em ocultar. É atenção mais que certeza. É coragem de olhar para o céu e perceber, com o coração inquieto, que algo significativo acaba de acontecer.

Mesmo nas minhas mesas de 6 de janeiro, com a Torta dei Re Magi ou outra produção culinária, sinto que continuo a tocar essa história. Cada fatia, cada fruta cristalizada, cada aroma de especiaria, é gesto simbólico e memória viva: ouro, mirra e incenso traduzidos em sabor, cor e textura. O passado e o presente se encontram diante de mim, lembrando que o sagrado não está apenas nos livros ou nas relíquias, mas na experiência, na partilha e na atenção que oferecemos ao mundo.

Assim, os Magos — três ou mais, reis ou simples viajantes que liam o céu — continuam a caminhar comigo. Eles atravessam comigo os desertos da história, os labirintos do tempo, os caminhos silenciosos do cotidiano. Ensinaram-me que fé, curiosidade e coragem não são ideias abstratas, mas presentes que se carregam no peito: invisíveis, intocados, mas pulsando com uma realidade intensa, capaz de mover montanhas e atravessar eras.

Eles me lembram que olhar para o céu, mesmo quando tudo ao redor insiste em permanecer cego, é um ato de revolução. Que perceber sinais — pequenos, fugazes, quase imperceptíveis — é cultivar uma espécie de eternidade dentro de si. Que atravessar o conhecido, arriscar-se pelo desconhecido, é tocar o sagrado em sua forma mais pura: aquele que não se explica, mas se sente, se respira e se reconhece em cada gesto de atenção.

Cada passo dos Magos é lembrança de que o extraordinário não precisa de palácios nem de ouro; ele se revela na simplicidade de um gesto atento, no silêncio de uma vigília, na história que escolhemos contar com alma. Cada estrela que eles seguem é convite: para caminhar, para ousar, para perceber que o mundo é mais vasto, mais profundo e mais belo do que os olhos cansados conseguem medir.

E assim eu sigo, com eles sempre à frente, lembrando que a verdadeira epifania não é apenas observar, mas ser atravessado pelo que nos transcende. Que cada gesto de amor, cada curiosidade, cada ato de coragem, mesmo mínimo, é luz que atravessa os tempos e toca outros corações. Que a história dos Magos continua viva, não nas páginas antigas, mas em cada olhar desperto, em cada mesa compartilhada, em cada memória que transformamos em gesto — ouro, mirra e incenso traduzidos em vida.

Porque o extraordinário não precisa de palco. Ele acontece quando estamos atentos. Ele acontece quando escolhemos caminhar, sempre, guiados por estrelas invisíveis, pela coragem de acreditar que o mundo pode ser mais vasto, mais misterioso, mais sagrado do que qualquer certeza.

E é nessa dança silenciosa entre história, coragem e atenção que eu encontro a eternidade: nos Magos, nas estrelas, em mim mesmo, e em tudo aquilo que escolho ver, sentir e guardar com alma.

TORTA DEI RE MAGI

350 g de farinha de trigo

100 g de açúcar

150 ml de leite morno

1 ovo inteiro

50 g de manteiga em temperatura ambiente

Raspas de 1 laranja e 1 limão

Frutas cristalizadas e frutas secas para decorar

Amêndoas laminadas e/ou perolas de açúcar para decorar (opcional)

1 colher de chá de fermento biológico seco

1 pitada de sal

Modo de preparo: Dissolva o fermento no leite morno com um pouco de açúcar e deixe ativar por cerca de 15 min. Em uma tigela grande, misture a farinha, o açúcar, as raspas de cítricos e a pitada de sal. Adicione o ovo e o leite com fermento e comece a misturar até formar uma massa. Junte a manteiga aos poucos, sovando até que a massa esteja lisa e elástica. Cubra e deixe descansar em local morno por cerca de 2–3 horas, até dobrar de tamanho. Modele em forma de anel (como uma coroa) e coloque em uma forma de bolo com furo no meio se quiser que ele fique mais alto – ou, se não, pode modelar bolas menores de massa e formar uma espécie de flor com uma bola maior no centro e outra menores em volta. Decore com frutas cristalizadas, frutas secas e raspas, simbolizando as pedras preciosas da coroa. Incluas as amêndoas laminadas e as pérolas de açúcar. Asse em forno pré-aquecido a 180 °C por cerca de 35–45 minutos, até dourar. Retire do forno e deixe esfriar numa gradinha.

Dica: para melhorar ainda mais, você pode partir, de frio, na horizontal e rechear com o creme de sua preferência (chantilly, creme de confeiteiro, de chocolate, creme de café, creme diplomada.... etc).